Quem vota em Bolsonaro
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| Foto: Globo.com |
Nos últimos anos, o cenário político brasileiro tem sido palco de um fenômeno que merece análise cuidadosa. Trata-se de um movimento que transcende a mera disputa eleitoral e toca em questões fundamentais sobre nossa democracia, nossas instituições e nossa própria identidade como sociedade.
A Inconstitucionalidade Como Discurso
Quando observamos as declarações públicas de Jair Bolsonaro, um exercício simples revela-se esclarecedor: confrontá-las com o texto constitucional. O ex-presidente acumula duas condenações apenas neste ano relacionadas a manifestações públicas — não por acaso, já que diversas de suas propostas e afirmações colidem frontalmente com princípios estabelecidos na Carta Magna de 1988.
A Constituição Federal não é apenas um amontoado de artigos e incisos; é o pacto civilizatório mínimo que estabelecemos como nação após duas décadas de ditadura militar. Quando um líder político flerta reiteradamente com ideias que violam esse pacto, não está apenas cometendo equívocos jurídicos — está questionando as bases da nossa frágil democracia.
A Estratégia do Poder pelo Afeto Negativo
Há quem argumente que o projeto político de Bolsonaro resume-se a um objetivo: manter-se e manter seus familiares no poder, utilizando-se de uma retórica que captura paixões nacionalistas. Se isso é verdade ou não, cabe ao eleitor julgar. O que se pode observar objetivamente é a utilização de uma estratégia que não é nova na política, mas que ganha contornos particulares no Brasil contemporâneo: a exploração do ressentimento como combustível eleitoral.
Entre 2013 e 2016, o Brasil viveu uma transformação profunda em seu debate público. As jornadas de junho, a operação Lava Jato e a cobertura da grande mídia — notadamente a Rede Globo — criaram uma tempestade perfeita que desembocou no impeachment de Dilma Rousseff e pavimentou o caminho para discursos antes marginais.
Os Grupos que Sustentam o Bolsonarismo
Para compreender a força política que mantém Bolsonaro como figura central mesmo após derrotas eleitorais e condenações, é necessário olhar para os diferentes perfis que compõem sua base de apoio.
O Ressoar do Ressentimento
O primeiro grupo é formado por aqueles que tiveram sua pauta de inclusão social sequestrada por um discurso que transformou a luta por igualdade em mero instrumento de crítica à corrupção. Quando a demanda por justiça social é desqualificada como "coisa de petista", o cidadão comum perde o vocabulário político para expressar suas legítimas insatisfações.
Sem canais democráticos de expressão, o descontentamento transmuta-se em ódio difuso. Este grupo é composto majoritariamente por jovens que cresceram em um Brasil relativamente estável, imersos em valores de consumo e ascensão individual, mas desprovidos de ferramentas para compreender as complexidades geopolíticas e econômicas que moldam suas vidas. Para eles, a política reduz-se à estética — carreira, imagem, signos sociais — e qualquer discurso que critique o status quo soa como ameaça existencial.
O Conservadorismo Moral como Bandeira
O segundo contingente identifica-se visceralmente com o discurso contra pautas identitárias e de minorias. Composto majoritariamente por homens — brancos ou pardos que se percebem como brancos — este grupo enxerga nas transformações sociais uma ameaça à ordem natural das coisas.
Há aqui uma contradição fascinante: homens negros que apoiam Bolsonaro frequentemente não se reconhecem como negros ou não atribuem à luta racial legitimidade política. Para eles, o racismo não é uma questão estrutural, mas uma falha moral individual — "falta de amor" — que se resolve no plano pessoal, não no coletivo.
O Voto Feminino e a Moralidade Seletiva
As mulheres que compõem esta base, por sua vez, são majoritariamente atravessadas por um discurso religioso fundamentalista. Frequentemente mães de crianças pequenas, expressam medo genuíno em relação à "gayzação da humanidade" — termo que revela mais sobre ansiedades culturais do que sobre políticas públicas concretas.
O falso moralismo bate à porta em primeiro plano; tudo o mais vem depois. É como se fôssemos sistematicamente treinados a nos preocupar com o que não importa — com a orientação sexual alheia, com expressões de gênero, com o que não afeta diretamente nossas vidas — enquanto questões estruturais como desigualdade, saúde e educação permanecem em segundo plano.
A Exceção LGBTQIA+
Há ainda um grupo numericamente pequeno, mas analiticamente relevante: pessoas LGBTQIA+ que votam em Bolsonaro. Em geral, são indivíduos de classes privilegiadas, cuja condição socioeconômica blindou-os das violências cotidianas sofridas pela maioria da comunidade. Para estes, a pauta identitária não ressoa como urgência política — e o antipetismo, habilmente cultivado pela mídia ao longo dos anos, sobrepõe-se a qualquer solidariedade de grupo.
A Armadilha das Paixões
O que todos estes grupos têm em comum é a adesão a uma narrativa que substitui a complexidade da vida real por maniqueísmos reconfortantes. Onde deveria haver debate sobre projetos de país, há guerra cultural. Onde deveria haver construção de consensos possíveis, há trincheiras identitárias.
A tragédia brasileira talvez seja esta: termos transformado o legítimo desejo de mudança em combustível para uma política do ódio que, em última instância, perpetua exatamente as estruturas que nos mantêm como um dos países mais desiguais do planeta.
A pergunta que fica — e que cada eleitor precisará responder em seu íntimo — é: vale a pena incendiar a democracia para aquecer-se em suas chamas?



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