Cozinhando Discografias: Céline Dion
Há artistas que constroem carreiras pautadas pela reinvenção constante, e há aquelas que transformam a própria consistência em virtude máxima. Celine Dion, indiscutivelmente, pertence ao segundo grupo. Em mais de três décadas de trajetória internacional, a canadense nascida em Charlemagne, Quebec, fez da voz imponente e da entrega emocional absoluta os pilares de uma discografia que funciona como verdadeiro manual da power ballad. Uma obra repleta de clássicos como My Heart Will Go On, The Power of Love, It's All Coming Back to Me Now e Because You Loved Me – fragmentos de um cancioneiro romântico que atravessou gerações.
Há um debate recorrente na música pop sobre a necessidade de artistas se reinventarem a cada ciclo. Funciona para alguns, é verdade. Mas cantoras como Celine Dion – e poderíamos incluir aqui Whitney Houston no mesmo fôlego – sempre pairaram acima dessa obrigação. Quando se tem uma voz grandiosa, emocionante, capaz de paralisar qualquer ouvinte em uma única nota sustentada, a inovação deixa de ser pré-requisito. O talento natural simplesmente se sobressai a qualquer tendência passageira. E é exatamente isso que torna a discografia de Dion tão fascinante: uma obra que atravessou décadas sem jamais trair sua essência, organizada aqui do que chamaremos de "menos essencial" ao ápice criativo, em mais uma edição do Cozinhando Discografias.
#12. Miracle (2004, Columbia)
Existem discos que funcionam melhor como projeto multimídia do que como experiência puramente musical. Miracle pertence a essa categoria. Idealizado como uma parceria com a fotógrafa Anne Geddes, o álbum nasceu para acompanhar um livro de imagens de bebês, e essa premissa define suas virtudes e limitações.
De um lado, é impossível negar a beleza etérea de faixas como Beautiful Boy (composição de John Lennon) e a versão para What a Wonderful World, que ganha contornos ainda mais sublimes na voz de Dion. O problema é que, ao longo de 13 faixas, Miracle soa menos como um álbum autoral e mais como uma coletânea de canções de ninar interpretadas por uma das maiores vozes do mundo. Falta ali a pegada característica de Celine, e o resultado, embora agradável, é quase esquecível dentro de sua filmografia – um retrato cuidadoso, mas anódino, de uma artista acostumada a voos mais altos.
#11. One Heart (2003, Columbia)
Se A New Day Has Come (2002) havia apresentado uma Celine Dion renovada, pronta para abraçar o novo milênio com elegância, One Heart parece querer levar essa proposta às últimas consequências – e acaba escorregando justamente no excesso de entusiasmo.
Idealizado como um álbum essencialmente dançante, o disco mergulha de cabeça no dance-pop produzido na virada dos anos 2000. A faixa-título e I Drove All Night (regravação de Cyndi Lauper) são exemplos perfeitos da proposta: refrões grudentos, batidas eletrônicas e uma Celine claramente se divertindo. O problema reside na extensão da obra. Com 14 faixas, One Heart cansa pela repetição de fórmulas, e a falta de baladas mais densas – justamente o território onde a cantora mais se destaca – faz falta. É um retrato curioso de um período, um disco que funciona como trilha de academia, mas dificilmente como obra essencial.
#10. Loved Me Back to Life (2013, Columbia)
Após um hiato de seis anos sem lançar material inédito em inglês (desde Taking Chances, de 2007), Celine Dion retornou com um disco que deixava clara a intenção: dialogar com as tendências pop do início da década de 2010. Loved Me Back to Life é o retrato de uma artista disposta a se modernizar, ainda que nem sempre acerte completamente a mão.
Produzido por nomes como Babyface e Tricky Stewart, o álbum aposta em elementos do R&B contemporâneo e do pop eletrônico que dominava as paradas. A faixa-título, com seus toques de dubstep, surpreende – para o bem e para o mal. É admirável vê-la tentando coisas novas, mas falta ali a naturalidade de trabalhos anteriores. A grande virtude do disco, no entanto, está nas baladas mais tradicionais, como Water and a Flame, parceria com o cantor escocês Daniel Merriweather, que devolve Celine ao terreno onde ninguém a alcança: o da emoção crua transmitida por uma interpretação cirúrgica. É um disco de transição, que tenta abraçar o novo sem jamais abandonar completamente a velha fórmula – afinal, quando se tem uma voz desse calibre, não há produção moderna que a faça soar descartável.
#09. Courage (2019, Columbia)
Chegamos ao trabalho mais recente de Celine Dion, lançado após uma pausa de seis anos – período marcado por perdas pessoais profundas, incluindo a morte do marido e empresário René Angéli. Courage é, naturalmente, um disco sobre recomeço e resiliência. É também, provavelmente, o trabalho mais extenso e, por isso mesmo, mais desigual de sua carreira.
Com 20 faixas em sua edição padrão, o álbum passeia por diferentes texturas do pop contemporâneo, de produções eletrônicas mais contidas (Flying on My Own) a baladas gospel (Courage). A influência de nomes como Sia e LP é perceptível em diversas composições, o que confere ao disco uma atmosfera mais moderna, ainda que por vezes genérica. O excesso de faixas acaba diluindo o impacto emocional – canções como Lying Down e The Hard Way mostram uma Celine disposta a soar jovem, mas falta ali a sofisticação que marcou seus melhores momentos. Quando o álbum finalmente desacelera e entrega pérolas como For the Lover That I Lost, fica claro que a força da cantora ainda reside na capacidade de transformar dor em arte – mesmo que, aqui, ela precise ser garimpada em meio a um repertório inchado.
#08. Taking Chances (2007, Columbia)
O título não poderia ser mais adequado. Taking Chances é, de fato, um disco de apostas – e a principal delas foi levar Celine Dion para um território visceralmente roqueiro, afastando-a (ao menos parcialmente) do universo das grandes baladas orquestrais.
Produzido por John Shanks (conhecido por trabalhos com Sheryl Crow e Alanis Morissette) e pelo australiano Ben Moody, o álbum apresenta guitarras proeminentes e uma abordagem mais crua para a voz de Celine. A faixa-título, composta originalmente por Kara DioGuardi e o vocalista do Goo Goo Dolls, John Rzeznik, é um dos melhores momentos da obra, assim como a poderosa Eyes on Me. Há, claro, espaço para baladas – Alone é um dos destaques –, mas a tônica do disco é uma sonoridade mais orgânica, que por vezes flerta com o rock de arena dos anos 1980. O resultado é interessante, ainda que nem sempre memorável. Taking Chances mostra uma Celine disposta a arriscar, mas mesmo quando as guitarras tentam roubar a cena, é a voz dela que permanece conosco ao final de cada faixa.
#07. These Are Special Times (1998, Columbia)
Ao lado de Merry Christmas, de Mariah Carey, These Are Special Times figura no seleto panteão dos grandes álbuns natalinos da história da música pop. Lançado no final de 1998, o disco capitalizava o momento absolutamente estratosférico de Celine Dion após o sucesso de My Heart Will Go On – e entregou muito mais do que uma simples coleção de standards de fim de ano.
A produção orquestral assinada por David Foster e a entrega vocal impecável de Celine transformam faixas como O Holy Night e Adeste Fideles em experiências quase religiosas. O grande trunfo, no entanto, está nas faixas inéditas: a poderosa Don't Save It All for Christmas Day, a emocionante The Prayer, dueto com Andrea Bocelli (canção que se tornaria um clássico instantâneo), e a divertida Feliz Navidad. É, do início ao fim, um disco que cumpre exatamente o que promete: criar uma atmosfera mágica para as celebrações de fim de ano. Se há uma crítica, é apenas o excesso de dramaticidade em alguns momentos – mas, tratando-se de Celine Dion, isso nunca foi exatamente um problema.
#06. Celine Dion (1992, Epic)
Antes de se tornar o fenômeno planetário que conhecemos, Celine Dion precisava provar ao mercado norte-americano que sua voz poderosa não era apenas um acidente de percurso. O autointitulado Celine Dion, segundo álbum em inglês da carreira, é o registro perfeito dessa transição – e, de quebra, o trabalho mais decididamente soul de sua discografia.
Produzido por Walter Afanasieff (parceiro habitual de Mariah Carey na época), o disco mergulha em texturas do R&B e da música negra produzida no início dos anos 1990. Faixas como Love Can Move Mountains (um dos momentos mais dançantes de sua carreira até então) e a balada If You Asked Me To (regravação de Patti LaBelle) mostram uma Celine completamente à vontade em território soul. O grande destaque, no entanto, fica por conta de Where Does My Heart Beat Now, primeiro single e responsável por apresentar sua voz ao público americano. É um disco de afirmação, que pavimentou o caminho para os gigantescos sucessos que viriam a seguir, e ainda hoje funciona como uma cápsula do tempo de uma artista encontrando sua identidade em um novo mercado – com a tranquilidade de quem já sabia que o instrumento vocal que carregava independia de qualquer modismo.
#05. Unison (1990, Epic)

Tudo começou aqui. Lançado em 1990, Unison marcou a estreia oficial de Celine Dion no mercado anglófono, depois de uma bem-sucedida carreira em francês no Canadá. É um disco de transição, evidentemente, mas que já apontava virtudes que seriam lapidadas ao longo da década.
Produzido por nomes como David Foster e Christopher Neil, o álbum mergulha no soft rock que dominava as rádios na virada dos anos 1980 para os 1990. A faixa-título e The Last to Know são exemplares desse período: guitarras limpas, refrões grudentos e uma produção extremamente datada – mas nem por isso desagradável. O grande momento, claro, é a balada Where Does My Heart Beat Now, que já antecipava a potência vocal que explodiria nos discos seguintes. Unison pode soar ingênuo diante da grandiosidade que Celine alcançaria poucos anos depois, mas funciona como uma fascinante peça de arquivo: o retrato de uma artista gigante aprendendo a dominar um novo idioma e, aos poucos, conquistando o mundo, sem jamais precisar se curvar completamente às regras do mercado.
#04. The Colour of My Love (1993, Epic)
Se Unison e o autointitulado haviam apresentado Celine Dion ao mercado americano, The Colour of My Love foi o disco que a transformou em um fenômeno global. Lançado em 1993, o álbum encontrou a fórmula perfeita de sofisticação pop e entrega emocional que definiria sua carreira – e, de quebra, entregou algumas de suas canções mais queridas.
Produzido por David Foster e Walter Afanasieff, o disco é um exercício de elegância sonora. A faixa-título, dedicada ao então namorado René Angéli, é uma das baladas mais românticas de seu repertório. When I Fall in Love, dueto com Clive Griffin registrado para a trilha de Sintonia de Amor, é puro suco de adult contemporary. Mas o grande mérito do álbum está nas canções que poderiam ter sido singles e jamais o foram – caso da poderosa Refuse to Dance, que mostra uma Celine rocker antes do tempo, e da emocionante Lovin' Proof. É um disco chic, refinado, que equilibra com maestria a pompa das orquestrações e a intimidade das interpretações. E, claro, abriga também a versão definitiva de The Power of Love – aquela que, até hoje, faz qualquer um que a ouça buscar um amor para dedicar a canção.
#03. Let's Talk About Love (1997, Epic)
Como suceder um fenômeno do tamanho de Falling Into You? A resposta de Celine Dion foi simples: mantendo a mesma fórmula, mas ampliando ainda mais o escopo. Let's Talk About Love é o retrato de uma artista no auge de seus poderes, cercada por colaborações que transformaram o disco em um evento pop global.
Lançado em 1997, o álbum trazia de tudo: parcerias com Barbra Streisand (Tell Him), com os Bee Gees (Immortality), com o tenor Luciano Pavarotti (I Hate You Then I Love You) e até uma incursão pelo mundo da música francesa (Pour Que Tu M'Aimes Encore, que já havia estourado no álbum D'eux dois anos antes). O resultado é um trabalho fragmentado, sim, mas sustentado por aquilo que Celine faz de melhor: cantar de forma absolutamente avassaladora. The Reason é uma das baladas mais subestimadas de sua carreira, My Heart Will Go On dispensa apresentações – e ouvi-la nos minutos finais do disco, após tamanha variedade de estilos, é compreender por que aquela canção específica se tornou tão gigantesca. É um álbum que abraça o mundo e, por isso mesmo, acerta e erra em igual medida – mas a potência vocal de Dion, mais uma vez, segura todas as pontas. Quando se tem uma voz dessas, não há fragmentação que a diminua.
#02. A New Day Has Come (2002, Columbia)
Depois de um hiato de quase quatro anos – dedicados à maternidade e ao afastamento dos palcos –, Celine Dion retornou com um disco que não apenas celebrava essa nova fase pessoal, mas também reposicionava sua sonoridade para o novo milênio. A New Day Has Come é um álbum de frescor, de reinvenção sutil, que equilibra a tradição com a modernidade.
Produzido por uma equipe que incluía nomes como Walter Afanasieff e Ric Wake, o disco aposta em texturas mais eletrônicas e em um pop adulto contemporâneo que dialogava com o que artistas como Faith Hill estavam fazendo na época. A faixa-título é uma das canções mais otimistas de sua carreira, com um refrão que cresce em intensidade sem jamais apelar para o dramalhão. I'm Alive, produzida por Kristian Lundin, é pop perfeito – daqueles que grudam no ouvido sem jamais soar descartáveis. E, claro, há espaço para as baladas que ninguém faz melhor: Goodbye's (The Saddest Word) é de partir o coração. O disco apresenta uma Celine mais madura, mais tranquila, mas ainda dona de uma voz capaz de paralisar qualquer ouvinte. É a consagração de uma nova fase, que prova algo essencial: quando o talento é inegável, a passagem do tempo só o torna mais impressionante.
#01. Falling into You (1996, Columbia)
Existem álbuns que definem carreiras. Existem álbuns que definem gêneros musicais. E existe Falling into You – um disco que transcende ambas as categorias para se tornar simplesmente a Bíblia da power ballad, o manual definitivo de como interpretar uma canção romântica.
Lançado em 1996, no auge da popularidade de Celine Dion, o álbum é uma aula de produção, repertório e entrega vocal. Jim Steinman, o lendário compositor de Meat Loaf, entregou a ela It's All Coming Back to Me Now – e o que poderia soar como excesso de dramaticidade nas mãos de qualquer outra intérprete se transforma em obra-prima absoluta. Because You Loved Me, composta por Diane Warren para a trilha de Um Amor para Recordar, é provavelmente a canção mais perfeita já escrita sobre gratidão e amor. All by Myself ganhou ali sua versão definitiva, superando a original de Eric Carmen.
Mas o que torna Falling into You tão especial é sua coesão. Das faixas mais uptempo, como a faixa-título e River Deep, Mountain High, aos momentos de introspecção absoluta ((You Make Me Feel Like) A Natural Woman), tudo ali funciona em perfeita sintonia. É um disco que dialoga com o passado da música pop sem jamais soar antiquado, que aposta na grandiosidade sem perder a intimidade. Com mais de 30 milhões de cópias vendidas, Oscar, Grammy e uma legião de fãs conquistados, Falling into You não é apenas o melhor álbum de Celine Dion – é um daqueles raros registros que justificam por completo o poder transformador da música romântica. Uma obra-prima do primeiro ao último acorde, e a prova definitiva de que vozes como a de Celine (e poderíamos incluir Whitney Houston no mesmo parágrafo) não precisam sair procurando inovação a cada esquina. Elas simplesmente existem – grandiosas, emocionantes, eternas – e isso, por si só, já é mais do que suficiente.


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